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 Dignidade e Respeito

A noção de Respeito está relacionada à de valor.  Os valores podem ser pensados em duas classes: valores instrumentais e valores intrínsecos. Acostumamo-nos a ver a natureza, por exemplo, como um valor instrumental para nós: servimo-nos dela, pois precisamos dela para viver (comemos raízes, tubérculos, folhas, talos, frutas, carnes de peixes, aves e animais). Mas a natureza, independentemente desse valor instrumental, guarda também um valor intrínseco: a espécie humana atual formou-se neste planeta há cerca de 200.000 anos atrás e o sistema-vida natural já estava aí com sua exuberante diversidade biológica há quase 3 bilhões de anos.  Toda a matéria cósmica inorgânica e, com muito mais razão, todas as formas de vida têm esse valor intrínseco: no seu conjunto são auto-suficientes, têm uma inteligência inerente, têm um poder inerente de produzir vida interminavelmente, e por isso valem por si mesmos, como um fim em si, e devem ser respeitados no seu modo próprio de ser.

A natureza, portanto, é digna de respeito absoluto, por seu valor instrumental (fonte material da nossa sobrevivência) e por seu valor intrínseco. Respeitamos as espécies ameaçadas de extinção porque elas têm esse valor em si: são manifestações e realizações dessa natureza valiosa, na utilidade, bondade e beleza de sua diversidade. Afirmar a sustentabilidade ambiental (biodiversidade) é um sinal de inteligência produtiva se pensamos em manter disponível o valor instrumental da natureza; é um sinal de inteligência ética se pensamos em respeitá-la e preservá-la também por seu valor intrínseco.

Cada ser humano também tem valores instrumentais. Tem talentos inatos e, sobre esses talentos, na medida do seu esforço, agrega valores (qualidades) à sua vida. Com esses valores apresenta-se no mercado e negocia a sua instrumentalidade: sua capacidade de trabalho, dentro de um empreendimento abrangente. A capacidade de trabalho tem indicadores: conhecimentos, experiências, produtividade e também o padrão de conduta moral e ética (honestidade, lealdade, veracidade, integridade, cooperatividade etc.). Essa instrumentalização de um ser humano nas relações de trabalho justifica-se eticamente na medida em que a pessoa for remunerada com proporcionalidade (justiça) às qualidades inatas ou adquiridas/construídas que ela mobiliza no trabalho. Na relação contratual de trabalho, todo ser humano tem o direito de ser reconhecido em seus valores instrumentais (como profissional). 

Mas cada ser humano é digno de respeito absoluto, também por seus valores intrínsecos:

1. por ser parte da mesma natureza intrinsecamente valiosa;

2. e por muito mais: por ser consciência e liberdade, por seu poder de auto-determinação, por sua capacidade criativa, pelo valor de sua responsabilidade. Toda pessoa tem o direito e o dever absoluto de valorizar-se e ser valorizada, respeitar-se e ser respeitada.

Mesmo uma pessoa que não tenha agregado qualidades notáveis a seus talentos (isso pode ocorrer tanto por falta de oportunidades quanto por desinteresse do próprio sujeito) ou que não tenha desenvolvido de modo notável as infinitas possibilidades de construção de sua subjetividade, merece respeito irrestrito, por seu valor intrínseco de ser pessoa.

O modo próprio do ser humano de viver é o da con-vivência. A necessidade (desejo) do convívio implica outra necessidade (desejo) fundamental: o de ser reconhecido, aceito, valorizado e respeitado socialmente.  A pior punição que se pode dar a um ser humano é expulsá-lo da vida social. A recusa, a agressão violenta, o abandono ou o grave desrespeito a uma pessoa na vida social, podem resultar em depressão e morte. Viver é con-viver.

As inerências de cada pessoa, que fazem dela um ser único, irrepetível, e merecedora de respeito absoluto nessa sua irredutível singularidade, são:

- suas inerências biológicas (orgânicas, não escolhidas pela pessoa): seu sexo, cor de pele, etnia, cultura e território de nascimento, seu biótipo, genótipo e fenótipo (constituição e aparência);

- suas inerências mentais, cognitivas, psíquicas e emocionais (em parte orgânicas, em parte estruturadas por seu grupo afetivo e social, em parte construídas pela própria pessoa a partir dessa estruturação social): suas capacidades e competências para a vida subjetiva e afetiva, assim como para a vida social e para o trabalho;

- suas inerências morais, éticas, estéticas, culturais, políticas, espirituais.

Cada pessoa humana merece (deve) ser respeitada também porque cada uma é como um exemplar e representante da Humanidade. “Quem salva uma vida salva a Humanidade”, escreveram os judeus salvos por Schindler numa aliança de ouro a ele presenteada. Podemos acrescentar: “Quem respeita uma vida respeita a Humanidade”.