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 Autonomia

​O ideal de maturidade de todo ser humano é a autonomia. E não apenas no mundo do trabalho Autonomia quer dizer “ser a norma de si mesmo” (em grego: autos = si mesmo; nomos = norma, lei). Isso significa, em outras palavras, ser independente de outros para agir. Sabemos que esse conceito, no limite, é equívoco; porque no limite ninguém é inteiramente independente dos outros (aquilo a que chamaríamos de soberania), portanto ninguém é inteiramente autônomo. No campo da conduta moral, porém, o conceito cabe sem restrições. Vejamos como e porque.

Durante muito tempo pensou-se que a racionalidade sistêmica e impessoal dos processos produtivos bastaria (e seria o melhor meio) para se garantirem processos produtivos eficientes. As experiências mais recentes no mundo empresarial apontam as limitações desse modelo. Um projeto coletivo unitário deve existir, mas sua execução deve combinar com o exercício da subjetividade dos sujeitos produtivos. Não apenas para a “satisfação” no trabalho desses sujeitos (como se fosse uma compensação), mas porque os sujeitos têm algo a contribuir produtivamente com sua criatividade se tiverem espaço para atuar.

O senso comum freqüentemente identifica autonomia com anarquismo e irresponsabilidade. Trata-se de uma representação equivocada. O exercício da autonomia implica a responsabilidade e a consequência, e isso é decisivo num ambiente empresarial.

Em qualquer instituição, situação em que o sujeito é parte de um projeto coletivo, a autonomia é a principal evidência de qualidade institucional: quando todos internalizaram a missão, a visão e os valores coletivos, o projeto pode desenvolver-se e realizar suas máximas potencialidades. O exercício responsável da autonomia é, assim, um indicador da qualidade e da boa formação dos Colaboradores.

O ideal da autonomia é um ponto de chegada nunca inteiramente alcançado, dada a imperfeição inerente de todo ser humano e de toda instituição. Mas para que ele seja um resultado, deve-se atravessar o paradoxo: o sujeito deve ter sido mais limitado e constrangido (heteronomia) no início do seu processo de formação. Todo ser humano nasce na condição de máxima dependência e indiferenciação (anomia): precisa de outros seres humanos (heteronomia) que estabeleçam os parâmetros para sua vida, como condição para diferenciar-se e construir sua própria autonomia e identidade. Trata-se de um aprendizado permanente. Por isso chama-se de “disciplina” o conjunto de condições desse processo de amadurecimento. Todo trabalhador ingressa numa empresa na condição de máxima dependência e heteronomia. Aos poucos vai recebendo a confiança da empresa e com ela alguma autonomia para tomar decisões.

Do ponto de vista funcional e visando o exercício qualificado da gestão, quanto mais elevado o nível hierárquico do sujeito, mais autonomia ele deve ter para tomar decisões dentro dos parâmetros da missão, visão e valores da organização. Desse ponto de vista, o ideal da autonomia coincide com o ideal de excelência no desempenho técnico-profissional. Por isso mesmo, maior é a responsabilidade do gestor sobre suas próprias ações, pois mais graves são as consequências de suas ações sobre si mesmo e sobre os outros. Por tudo isso, quanto mais elevado o nível hierárquico em que se encontra o gestor menor deve ser a tolerância da organização quanto a seus eventuais erros: ele já teve antes muitas chances de aprender.

Quanto mais baixo o nível hierárquico de um sujeito numa organização, mais oportunidades de aprendizagem ele deve ter. Seus equívocos (técnicos ou morais) devem ter como consequência principalmente medidas disciplinares (condições que propiciem sua aprendizagem) e não medidas punitivas. Está suposta em toda ação de um sujeito adulto, sempre, a sua boa intenção, pois a má intenção não deve ser tolerada em nenhuma hipótese: ao contrário, ela deve ser respondida com medidas extremas (dispensa). O sujeito, se quiser, poderá eventualmente aproveitar essa punição como uma experiência educativa para si mesmo no futuro, mas só poderá fazer isso em outra instituição.

Nos dois extremos hierárquicos, portanto, estão presentes margens de decisão institucionais (definidas a partir de sua missão, visão, valores). Limites sempre deverá haver. Eles tenderão a ser estreitos nas posições hierárquicas mais inferiores e largos nas posições mais elevadas, em consequência desse processo de passagem da heteronomia à autonomia. A transgressão desses limites jamais pode passar despercebida e jamais pode ser inconseqüente. Qual a largura e a flexibilidade dos limites? A resposta a essa pergunta será importante manifestação da identidade da empresa, principalmente de sua visão e de seus valores. Há empresas mais flexíveis e há empresas muito rígidas.

Por tudo isso, a principal qualidade da organização no que se refere a seus processos de regulação de condutas técnicas e morais deve ser a clareza e transparência das normas. Todos devem ter acesso e devem poder compreender inteiramente todas as normas vigentes, contribuir com sua opinião para aprimorá-las, assim como conhecer e compreender as consequências de seu eventual descumprimento.